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2025-04-09O Brasil pode se tornar um player importante na produção de smartphones em escala global, caso a guerra tarifária entre EUA e China continue a se intensificar. Estima-se que o país tenha capacidade para fabricar entre 10 e 19 milhões de unidades além do necessário para abastecer o mercado interno em 2025.
Essa possibilidade pode se concretizar especialmente diante da disparada das tarifas impostas pelo presidente norte-americano contra a China. A avaliação é de Reinaldo Sakis, diretor de pesquisas da IDC, que define esse momento como a “oportunidade dos sonhos” para a indústria brasileira.
Enquanto os EUA impõem tarifas de até 125% sobre produtos chineses, os itens fabricados no Brasil enfrentam uma alíquota muito menor, de 10%. Com isso, mesmo com desafios como mão de obra mais cara e uma cadeia de suprimentos mais limitada, o produto brasileiro passa a ser mais competitivo que o chinês no mercado norte-americano.
“Em 2019, fabricamos cerca de 49 milhões de celulares. Este ano, devemos ficar abaixo de 38 milhões — talvez até menos de 30 milhões. Isso mostra que existe capacidade produtiva ociosa no Brasil”, afirma Sakis. “Fabricar mais dez milhões de produtos não seria impensável. Em questão de semanas, isso poderia ser viável”.
Segundo Sakis, o aumento na produção poderia ser alcançado com medidas simples, como a adição de um novo turno de trabalho em fábricas como as da Samsung, Motorola ou Foxconn. Esse incremento representaria um crescimento entre 26% e 33% na produção nacional de celulares, em comparação com as estimativas mais pessimistas para 2025.
Governo confirma interesse da indústria em ampliar produção em Manaus
A Zona Franca de Manaus, maior polo industrial do Brasil, ganhou novo protagonismo com a escalada tarifária entre EUA e China. A Samsung, maior fabricante mundial de celulares, possui planta na região e tem condições técnicas para produzir modelos topo de linha — justamente os mais vendidos no mercado americano.
Além dos smartphones, outros produtos de alto valor agregado, como fones de ouvido e caixas de som, também poderiam se beneficiar de uma nova onda exportadora a partir de Manaus.
Segundo Bosco Saraiva, superintendente da Suframa, uma infraestrutura aérea para essa operação já está disponível.
“Há uma rota direta Manaus–Miami que hoje é subutilizada na volta aos EUA. Poderíamos usar essa volta para exportar produtos de alto valor agregado, como smartphones. Isso inclusive reduziria custos para as companhias aéreas”, afirma.
Brasil ainda não é a China
Apesar da oportunidade, especialistas alertam que o Brasil está longe de competir com a China em escala e infraestrutura industrial. Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, explicou que para além dos 10 milhões de celulares já possíveis, seria necessário alto investimento em ampliação de fábricas e melhorias logísticas.
“Apesar dos incentivos, a produção em Manaus ainda se concentra na montagem, não na fabricação completa de eletrônicos. Poucas empresas têm estrutura técnica para isso, e escalar essa operação é um desafio”, afirma. “A falta de tecnologia local e os altos custos tornam o cenário ainda mais difícil”.
