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2025-02-24Neste mês, a Netflix lançou uma de suas atrações mais aguardadas para o mês de fevereiro, que antecede o Oscar: a plataforma apostou em uma atmosfera de tecnofobia e insegurança em relação à inteligência artificial. Embora não haja muita novidade aqui, o que chama a atenção é como a série Cassandra segue uma fórmula estabelecida a partir de Stranger Things para transformar qualquer gênero de conteúdo em uma atração “para toda a família” — provando que o título se tornou fundamental para a empresa.
Para explicar como Cassandra tenta ser um “suspense sci-fi retrofuturista para toda a família”, é preciso voltar ao começo dos anos 2010, quando a Netflix estava tentando utilizar seu ativo mais importante, seu algoritmo proprietário, em prol de atrações mais sustentáveis e certeiras.
A empresa sabia que precisava multiplicar seu conteúdo original e as contas não andavam muito bem para grandes investimentos em produções sem retorno garantido. A Netflix tentava encontrar um formato próprio de atração que conseguisse transformar os milhões investidos em locações e cenários em uma audiência mais ampla e sólida.
Ah, sim, com esse esclarecimento, você agora sabe também por que a Netflix começou a trazer tanto conteúdo asiático e europeu para o catálogo — leia-se animes, doramas e atrações alemãs, francesas e espanholas: por que esses títulos não estão vinculados a grandes redes de TV aberta e nem foram propriedade de conglomerados como Warner e Disney, portanto, a negociação e o contrato desses conteúdos têm preços e período de exibição mais longos e flexíveis.
O algoritmo proprietário salvou a Netflix
Com a chegada do streaming, os modelos de negócios de exibição de filmes e séries mudou bastante. Em vez de contratos vitalícios, como acontecia na TV, os donos dos direitos de transmissão passaram a negociar a cessão dos títulos por poucos meses, e com restrição de praças — essa foi uma das estratégias dos canais convencionais, por exemplo, proteger-se da iminente perda de público para o streaming.
Assim, a cada mês passou a sair e entrar muita coisa no catálogo. E, no final das contas, foi isso que ajudou a Netflix ajustar seu algoritmo para torná-lo em sua grande “receita secreta”: com a customização refinada e atualização constante do painel de entrada de oferta de títulos, a companhia evitava que os usuários notassem que o catálogo da plataforma era muito limitado.
Stranger Things e Making a Murderer redefinem a Netflix
Os padrões obtidos com a coleta de dados passaram então a definir duas coisas essenciais para o crescimento da companhia: um modelo de análise capaz de estabelecer patamares de avaliação de risco de investimento das produções e um formato feito sob medida para a exibição exclusiva na Netflix — e ambas as coisas foram se retroalimentando para lapidar uma à outra.
Making a Murderer e, principalmente, Stranger Things, têm tudo a ver com isso. Vou explicar usando a série oitentista dos Irmãos Duffer para ilustrar melhor, até porque os poucos dados obtidos sobre isso podem sustentar melhor o que vou dizer — lembrando que a Netflix não divulga dados detalhados de audiência, e que as informações abaixo foram tiradas de observação própria e de investigação de outros jornalistas nos bastidores, incluindo relatos de ex-funcionários da companhia.
A Netflix precisava aproveitar ao máximo os investimentos feitos em cenários e locações, pois a companhia não nasceu exatamente como um estúdio de Hollywood. Então, cada atração é “taylor made” para as gravações sobre estruturas que são reaproveitadas para cortar custos, e a narrativa precisa manter os personagens um bom tempo no ambiente mais icônica de cada fase da história.
Assim, a empresa passou a popularizar com mais gente de diferentes etnias e faixas etárias, com o objetivo de ampliar a representatividade, e, consequentemente, reunir uma gama muito maior e mais diversa de consumidores.
E daí nasceu esse formato “para a família toda” com pelo menos dois núcleo: o adolescente e o adulto, eventualmente com uma faixa de idade também para o público infantil. Basta notar que a turminha de Hawkins fica no centro para a idade entre 12 e 20 e poucos anos; daí tem os adultos como o delegado interpretado por David Harbour e a mãe batalhadora de Wynona Rider.
A partir daí a coisa só se espalhou: observe Atypical, Sex Education e várias outras atrações de comédia e drama que, claro, podem comportar esse tipo de dinâmica.
E agora, temos um “suspense para a família toda” com Cassandra também reunindo um elenco para cada faixa etária. Tudo bem que isso não é tão bem feito assim ainda, pois os subplots dos adolescentes e das crianças não têm peso semelhante à trama principal protagonizada pelos adultos e até a transição para cada elenco é esquisita.
Ainda assim, dá para dizer que Stranger Things não somente explodiu a audiência da Netflix como também sanitizou as contas e deixou os projetos mais sustentáveis e interessantes. Basta olhar novamente aquele gráfico de ETF lá em cima para notar que, não à toa, “a virada” da plataforma veio em 2015 e 2016 — os anos de estreia de Making a Murderer e de Stranger Things, respectivamente.
